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Comics News | Crise migratória em Ceuta: conheça a história de refugiados que tentaram atravessar a fronteira com o Marrocos a nado

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 — Esses países têm usado seres humanos como forma de pressionar a UE para dar a eles o que querem, seja mais dinheiro, facilidades de comércio ou ajudar em questões diplomáticas — explica

CEUTA, ESPANHAAntes do raiar do dia 18 de maio, o saudita Ahmed A., de 33 anos, tentou a primeira travessia do Marrocos para o enclave espanhol de Ceuta, na costa mediterrânea da África. Foi apanhado e mandado de volta por autoridades espanholas. Em uma segunda tentativa no mesmo dia, nadou por dois quilômetros, mas foi novamente perseguido e obrigado a voltar ao Marrocos

Tensão entre Marrocos e Espanha gera crise migratória em Ceuta; veja fotos Militares espanhóis reagrupam os menores na praia de El Tarajal Foto: JON NAZCA / REUTERS Menino marroquino chora nadando usando garrafas como flutuadores, próximo à cerca entre a fronteira hispano-marroquina, em Ceuta, Espanha Foto: JON NAZCA / REUTERS Militarl indica a direção a seguir aos cidadãos marroquinos que chegam à praia de El Tarajal Foto: JON NAZCA / REUTERS Cinco mil imigrantes em um único dia. Onda migratória vista é sem precedentes, afirmam autoridades Foto: FADEL SENNA / AFP Membros da Cruz Vermelha e soldados espanhóis carregam um migrante que chegou nadando no enclave espanhol de Ceuta Foto: ANTONIO SEMPERE / AFP Pular PUBLICIDADE Cidadãos marroquinos bebem suco após cruzarem a cerca entre a fronteira hispano-marroquina, na praia de El Tarajal Foto: JON NAZCA / REUTERS Militares espanhóis atendem marroquino com sinais de hipotermia na praia de El Tarajal Foto: JON NAZCA / REUTERS Militares espanhóis cercam cidadãos marroquinos, depois que milhares de marroquinos nadaram pela fronteira hispano-marroquina Foto: JON NAZCA / REUTERS Cerca de um quinto dos cinco mil imigrantes que chegaram no enclave espanhol de Ceuta são menores de idade Foto: ANTONIO SEMPERE / AFP Marroquino é resgatado na praia de El Tarajal, perto da fronteira hispano-marroquina, em Ceuta Foto: JON NAZCA / REUTERS Pular PUBLICIDADE Militar espanhol ataca cidadão marroquino com porrete na praia de El Tarajal Foto: JON NAZCA / REUTERS Ministério do Interior anunciou o envio de 200 agentes da guarda civil e da polícia nacional para reforçar não apenas as áreas fronteiriças Foto: JON NAZCA / REUTERS Cidadão marroquino caminha de volta ao Marrocos, na praia de El Tarajal. Quase metade dos imigrantes foram devolvidos Foto: JON NAZCA / REUTERS Imigrantes marroquinos se reúnem na cidade de Fnideq, no norte, enquanto tentam cruzar a fronteira do Marrocos com o enclave espanhol de Ceuta, no norte da África Foto: FADEL SENNA / AFP  

Ahmed, que prefere não divulgar o sobrenome, foi uma das 8 mil pessoas que fizeram a travessia da cidade marroquina de Fnideq para Ceuta nos dias 17 e 18 de maio. Na época, o governo do Marrocos foi acusado de ter afrouxado a segurança da fronteira, como retaliação à acolhida de um líder do movimento de independência do Saara Ocidental pela Espanha, em abril deste ano, para tratamento da Covid-19.

Para Ahmad, a procura por um local seguro começou em 2020, quando autoridades da Arábia Saudita descobriram que ele era homossexual, o que pelas leis do país é crime passível de apedrejamento e morte. O governo fechou sua loja de roupas e o prendeu por nove meses em um centro de detenção, até ser obrigado pelo governo saudita a fugir do país, e partiu para o Iêmen, país vizinho. 

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Durante seis meses, o saudita atravessou quatro países — Iêmen, Egito, Níger e Argélia — com a ajuda de contrabandistas até chegar ao Marrocos, em março deste ano. Lá, conseguiu o status de refugiado pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur). Em maio, decidiu tentar emigrar para a Espanha.

Quando eu cheguei a uma praia espanhola em Ceuta, corri e tentei escapar dos policiais e do Exército e chegar em uma estrada principal, mas eles me pegaram no caminho e bateram em mim com bastões. Eu não conseguia correr. Eu estava exausto de tanto nadar — contou Ahmad.

O movimento de expulsão imediata de migrantes e solicitantes de asilo do território de destino é conhecido como “devolução a quente”. A diretora associada da Human Rights Watch para a Europa, Judith Sunderland, afirma que a prática não é recente e “é muito problemática do ponto de vista dos direitos humanos”.

 

Eles não devem ser sujeitos à violência nem a tratamento brutal e devem poder ser ouvidos e se explicarem, além de terem uma assistência individual, e nada disso aconteceu em Ceuta — disse ela.

Refugiados que moram no Marrocos também passam por dificuldades, como foi o caso do jornalista iemenita Khaled, que preferiu não falar o sobrenome. O status, concedido pelo Acnur em 2020, foi suficiente apenas para reduzir a brutalidade policial que sofreu no país africano, e tem o mesmo objetivo de Ahmad: viver com segurança na Espanha. Ex-funcionário do governo do Iêmen, Khaled passou a correr perigo após a eclosão da guerra civil no país, em 2015.

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O jornalista conta que já havia tentado chegar ao país europeu antes do grande fluxo de maio. Em 14 de abril, outra cidade espanhola dentro de território marroquino. Ele e outros 12 iemenitas pularam a cerca da fronteira da cidade, mas foram detidos pela guarda civil local e entregues à força marroquina. Cumpriu pena por um mês, e acabou transferido para Chichaoua, no Sul do Marrocos, e retornou para tentar a travessia por Fnideq.

Na madrugada de 17 de maio, passou duas horas no mar até chegar a Ceuta. Uma vez no território espanhol, procurou a Cruz Vermelha para assistência, e foi levado, junto com outros iemenitas, para o Centro de Permanência Temporária de Imigrantes. Mesmo com status de refugiado e proteção humanitária em Ceuta, ele relata que soldados espanhóis o arrastaram de volta para o Marrocos. Agora em Casablanca, Khaled estuda como devem ser os próximos passos.

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A diretora assistente da Human Rights Watch para a Europa explica que tanto a situação de imigrantes e refugiados quanto de muitos moradores é precária no Marrocos.

PUBLICIDADE — Tem pessoas do Marrocos que são perseguidas no próprio território, seja por crenças religiosas, políticas, orientação sexual ou de identidade de gênero. Muitos vivem em condições lamentáveis, como pobreza extrema, vivendo em florestas e cavernas, colocados em ônibus, levados para o deserto e deixados lá para sobreviver.

O saudita Ahmad acredita que a entrada na Espanha poderia salvar sua vida. Ele planejava criar um canal no YouTube para denunciar abusos contra LGBTs na Arábia Saudita quando estivesse estabelecido no país europeu.

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— Não sei o que fazer agora, sinto que voltei direto para o começo de tudo isso. Vou tentar entrar de novo porque, se voltar para a Arábia Saudita, eu morro.

Judith Sunderland, da Human Rights Watch, explica que explica que a liberação do cruzamento da fronteira entre Fnideq e Ceuta foi uma jogada do Marrocos, com “seres humanos como peões”, para fazer pressão sobre a Espanha por causa do Saara Ocidental, região rica em recursos minerais. A anexação da região após a saída dos colonizadores espanhóis, em 1974, nunca foi reconhecida pela ONU, que a classifica como “território não descolonizado”. Desde 1975, a Frente Polisário luta pela independência do Saara, com apoio da Argélia, e todas as tentativas de mediação internacional do conflito fracassaram.

PUBLICIDADE O uso de fluxos migratórios como moeda de barganha não é incomum, aponta a especialista. Países como Turquia e Líbia também usam os imigrantes que usam seu território como rota para pressionar a União Europeia (UE).

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 — Esses países têm usado seres humanos como forma de pressionar a UE para dar a eles o que querem, seja mais dinheiro, facilidades de comércio ou ajudar em questões diplomáticas — explica.

Entretanto, Sunderland ressalta que, independentemente das articulações geopolíticas, os fluxos migratórios de países do Oriente Médio e da África para a Europa existem por causa das situações extremas que afetam suas populações.

*Estagiária sob supervisão de Claudia Antunes

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